
A princesa estava ali deitada como nada fosse. Os olhos fechados e imóveis, a boca entreaberta mas sem sorrir, os cabelos loiros deslizavam pelo seu corpo, tinha um vestido daqueles grandes, daqueles azuis e amarelos que as princesas usam.
O príncipe chegou e deu-lhe um beijo daqueles que acordam qualquer princesa. Ele estava apaixonado, sabia que o amor que sentia era capaz de a acordar, só ela podia ser o sonho bom dele. Mas ela não acordou. Ela continuou no mesmo sítio, inanimada.
Ele não sabia o que fazer mais, o beijo era suposto acordá-la. Todas as histórias acabam felizes com o beijo, aquele beijo final que sela o amor entre o príncipe e a princesa. Assim não aconteceu.
Mesmo que nenhum deles possua um título real, o amor merece. Merece que lhe chamemos princesa, merece que lhe chamemos príncipe. Que tenham o seu reino, onde possam ser felizes. Onde possam fazer inveja a tudo e todos, não por motivos monetários, mas porque se amam, e esse sentimento é raro. Por isso, merecem.
O problema é quando o príncipe não consegue acordar a princesa adormecida. Quando só ele vive no castelo dos seus sonhos, quando ela não o acompanha nesse reinado. E assim aconteceu com o nosso príncipe. Ver o amor da sua vida, mesmo em frente dos seus olhos, não foi suficiente.
Encontrava-se perdido, pobre coitado. Deitado sobre a princesa, olhando-lhe nos olhos numa última esperança que estes abrissem. Nada. Nada aconteceu. O príncipe tinha de ir procurar outra princesa, nenhuma iria ser a princesa adormecida. Nenhuma, pensou ele.
Anos mais tarde, casou-se com a mais bela das mulheres, ele achava-o. Ele amava-a. Com todo o seu coração, ele amava-a. Ele fazia-a feliz, ela fazia-o feliz. Eram príncipes no seu próprio castelo.
Um dia, a princesa adormecida apareceu-lhe à porta. Disse-lhe que enquanto ele estava sobre o seu corpo à espera que ela abrisse os olhos, ela tinha acordado. O amor que ele sentia, ela também sentia, mas teve medo e deixou-se ficar quieta. Deixou-o ir embora. Teve medo de tentar, medo de sofrer. Porque quando se arrisca num amor assim, as possibilidades de perder são enormes.
Com o decorrer dos anos, ela tentou encontrar outro príncipe. Encontrou algo muito diferente. Encontrou curtos momentos de paixão efémera. Encontrou algo que a fez sentir um pouco daquele amor que sentia pelo príncipe, sabendo sempre que assim não sofreria.
No entanto, sofria. Sofria porque tinha deixado o amor ir embora, tinha-o ignorado. Passados vários anos, esse medo passara e ali estava ela disposta a ser a sua princesa.
O príncipe olhou-a nos olhos, uma pequena lágrima escorreu-lhe pelo rosto, e disse-lhe:
- Há uns anos atrás, essas palavras fariam de mim a pessoa mais feliz do mundo. Hoje, deixam-me triste. Houve alguém que juntou os pedaços que despedaçaste, houve alguém que me fez acreditar no amor outra vez. Tu e eu, jamais.
Nunca mais se soube da princesa adormecida. Uns dizem que viveu sozinha para sempre, outros dizem que encontrou outro príncipe, ninguém sabe. O que todos sabem é que nem o príncipe, nem a princesa adormecida viveram felizes para sempre.
CumprimentosPS: Não, não é uma história triste.